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O ranking do FT não olha a pós do folder
O Financial Times avalia programas curtos de educação executiva, e a especialização lato sensu vendida no mesmo folder fica fora dessa lista.
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O ranking na parede e o folder da pós
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A frase aparece no primeiro terço da página de venda, quase sempre em caixa alta e com o logotipo de um jornal britânico do lado: escola entre as melhores do mundo em educação executiva, segundo o Financial Times. Logo abaixo dela vem o preço parcelado da especialização, a carga horária em torno de trezentas e sessenta horas, o calendário de aulas quinzenais e o botão de matrícula.
As duas informações estão na mesma página e falam de produtos diferentes. O ranking de educação executiva do jornal avalia programas curtos, de poucos dias a poucas semanas, comprados por empresas para times de gestores, com a conta paga pelo departamento de treinamento. A pós ao lado do botão é uma especialização lato sensu de dezoito a vinte e quatro meses, comprada por uma pessoa física com o próprio dinheiro, e nenhuma linha da metodologia daquele ranking olha para ela.
Escolas brasileiras aparecem bem nessa lista, e a Fundação Dom Cabral é o caso mais conhecido: figura há anos entre as primeiras colocadas do mundo na avaliação de programas customizados, ao lado de instituições europeias e americanas de nome pesado. A conquista é real, foi medida e não tem nada de inventado. Só que ela foi medida em outro produto, para outro comprador, com outra estrutura de entrega.
O mecanismo é o do selo emprestado. A marca ganha reputação numa linha de negócio, exibe essa reputação no material de todas as linhas e deixa o leitor completar sozinho a conclusão que ninguém escreveu. Ninguém mente, ninguém promete que a pós está no ranking, e mesmo assim o candidato sai da página achando que comprou um pedaço da posição que viu no topo.
Vale abrir a metodologia do próprio jornal e ver, linha por linha, quem responde ao questionário, o que é perguntado e por que a especialização que você está considerando não tem como entrar nessa contagem.
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I O PARECER
O que o ranking mede quando premia a escola
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O selo premia o curso da empresa, não a pós do aluno.
O ranking de educação executiva do Financial Times avalia dois universos, programas abertos e programas customizados, e os dois vivem no mundo corporativo, não no da pós paga por pessoa física. Programa aberto é o curso de agenda pública em que um profissional se inscreve por conta própria, com duração de dias. Programa customizado é o desenho sob encomenda para uma empresa cliente, entregue ao time dela, com objetivo definido em contrato.
O questionário tem dois lados. Um vai para a escola, que informa dados de operação: receita da unidade de educação executiva, crescimento, corpo docente, participação internacional, número de programas, perfil dos clientes. O outro vai para quem contratou, participante do programa aberto ou empresa cliente do customizado, e pergunta sobre preparação, desenho do curso, qualidade do ensino, instalações, acompanhamento posterior e disposição de recontratar.
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Recompra é uma das perguntas que mais pesam, e ela só faz sentido num produto vendido a empresas. Uma diretoria de recursos humanos que renova o contrato de treinamento por três anos consecutivos gera exatamente o sinal que a metodologia procura. Um aluno de especialização não recompra nada: ele conclui um curso de dois anos, recebe o certificado e vai embora.
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Existe ainda um corte de elegibilidade antes de qualquer nota. Para entrar na lista, a escola precisa ter receita mínima de educação executiva, número mínimo de programas por ano e clientes em mais de um país. Uma faculdade que só vende pós lato sensu para brasileiros não é reprovada nesse ranking: ela simplesmente não é candidata, porque nem tem o produto que a lista avalia.
O que a metodologia não pergunta desenha o resto do problema. Ninguém é questionado sobre a evasão da especialização, sobre a proporção de professores doutores da grade da pós, sobre a taxa de conclusão do trabalho final, sobre reajuste de mensalidade ou sobre quantos alunos mudaram de faixa salarial depois de formados.
A distância entre os dois produtos aparece na própria estrutura de entrega. O programa customizado que a escola vendeu ao banco tem turma fechada, professor sênior escalado para aquele cliente, material desenhado para o caso dele e relatório de resultados. A especialização noturna com cem alunos por turma opera com outra escala, outro custo por aluno e outro corpo docente.
Nada disso torna a pós um produto ruim por definição. Torna a nota do ranking imprópria como argumento de compra dela, que é uma diferença bem específica e a única que interessa quando o boleto vai sair do seu bolso.
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"O ranking é construído a partir de dois conjuntos de pesquisas, uma respondida pelas escolas e outra respondida por clientes corporativos e participantes dos programas."
Financial Times, Executive Education Ranking, nota metodológica, 2024
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II A BOLSA
Duas portas de entrada no mesmo prédio
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A mesma instituição pode vender, no mesmo endereço e sob o mesmo logotipo, dois produtos com público, preço, professor e regulação diferentes. Um deles entra em rankings internacionais privados. O outro segue as regras brasileiras de pós-graduação e é comprado por indivíduos que pagam do próprio bolso.
A porta corporativa recebe orçamento de treinamento. O comprador é uma empresa, a negociação passa por proposta técnica e comercial, o preço é por turma, e o cliente cobra resultado com nome e sobrenome. Quando esse cliente responde ao questionário do jornal, ele está avaliando a experiência daquele contrato, com aquele time e aquele professor.
A porta do consumidor recebe cartão de crédito e boleto. O comprador é uma pessoa que quer mudar de cargo, entrar em processo seletivo mais disputado ou preencher uma lacuna de formação, e ela decide sozinha, na frente de uma landing page, com o argumento de reputação que a página oferece.
| Quem responde ao questionário do ranking | empresa cliente e participante | | Duração típica do produto avaliado | de dias a semanas | | Duração típica da especialização vendida ao lado | dezoito a vinte e quatro meses | | Quem paga o produto avaliado | o departamento de treinamento | | Quem paga a especialização | o próprio aluno, em mensalidades | | Critério que mais destoa entre os dois | intenção de recontratar |
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O nome comercial ajuda a confusão a se sustentar. Programas curtos de educação executiva costumam ser anunciados com títulos que carregam palavras de gestão avançada e liderança, e a especialização lato sensu no Brasil pode ser chamada de MBA sem que a sigla signifique o mesmo curso de dois anos em tempo integral que existe lá fora.
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A pergunta que desfaz o nó cabe numa linha e pode ser feita por escrito ao consultor: o programa que estou comprando é o mesmo programa avaliado nesse ranking? A resposta honesta será não na esmagadora maioria dos casos, e ela costuma vir acompanhada de uma explicação sobre corpo docente compartilhado, que é um argumento legítimo e completamente diferente do selo.
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Vale registrar essa resposta. Consultor comercial tem meta, troca de time e não assina o contrato que você vai assinar, e o material impresso de hoje some do site amanhã sem deixar rastro.
Para gravar a conversa com o consultor, guardar o que foi prometido sobre corpo docente e comparar com o contrato antes de assinar, o Granola grava e resume em segundo plano: pegue pelo nosso link aqui.
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